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Nossa história nesse Natal

O Natal tem duas fases. Primeiro, quando somos criança e ganhamos presentes. Depois, adultos, damos os presentes. Estou nessa segunda etapa. E gosto. Nesse Natal, estava numa rotina acelerada de muito trabalho, idas e vindas a lojas, enfrentando estacionamentos lotados, até que recebi um e-mail da Irene Tanabe, líder dos contadores de história do Hospital das Clínicas: “Será que vai dar para presentear as crianças este ano? Elas adorariam ganhar os livros que a gente conta.”
E agora? São muitas, muitas crianças. Como conseguir? Logo pensei em fazer uma campanha (mania de publicitário), mas nem foi preciso. Parece que o universo espera um pequeno gesto, uma frase como essa, perdida em um e-mail, para unir pessoas que estão prontas a colocar o outro em primeiro lugar, pelo menos por algumas horas do dia. Para começar, enviamos uma mensagem e seu retorno nos encheu de coragem. Esperávamos receber um livro da editora e recebemos uma caixa. Em seguida, outro incentivo. Uma doação em dinheiro. Seguimos confiantes. A resposta à pergunta da Irene chegou de lugares diferentes, por pessoas diferentes e das formas mais variadas. Sim, conseguiremos presentear todas as crianças com livros neste Natal, porque recebemos uma lista com o e-mail de alguns editores, porque uma escritora deixou vários livros seus conosco, porque nossas amigas compraram seus livros preferidos para as crianças, porque uma contadora de histórias que trabalha em editora deixou mais uma caixa de livros no hospital. E para terminar essa corrente, porque nos emprestaram um carro grande para conseguirmos retirar, em outra editora, caixas e mais caixas de livros doados. Deu certo. Nesta foto, estão os contadores de história do Viva e Deixe Viver que entregaram às crianças essa história que nasceu de todos nós e que acabei de contar para vocês. No próximo Natal, só espero receber um presente. Fazer parte disso tudo de novo.

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Obrigada a todos que fizeram parte dessa história.
Um agradecimento especial às editoras e aos editores da Melhoramentos, Cosac Naify e Saraiva.

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10 dicas de quem é voluntário para quem vai ser voluntário do Viva e Deixe Viver

Tias, primas e novos contadores do Viva e Deixe Viver, estas dicas são para vocês.

Valdir Cimino, quem começou esta história

Valdir Cimino, quem começou esta história

1. Dica da Irene Tanabe: Acredite no que está contando

Acredite no que está contando. Tenha convicção na sua história. Seja convincente, até o ponto de você mesmo acreditar no que está narrando. “Essa história é de verdade?”, perguntou uma criança. “Algumas lendas são baseadas em fatos”, respondi com a maior certeza do mundo. “Arrrrghhhh, que medo!” Ela ficou pensativa por alguns instantes. Eu não tinha certeza de nada, mas contei com tanta verdade que a história parecia viva. Pulsava.

Irene Tanabe conta histórias com origamis e encanta a todos com sua serenidade e simpatia. Ela é a minha cabeça de chave no Instituto da Criança, do Hospital das Clínicas de São Paulo.

2. Dica da Vânia: Abra a porta do quarto devagar, como se estivesse abrindo uma caixinha de surpresa

Quando estamos prontos para entrar no quarto da criança, temos que imaginar que estamos abrindo uma caixinha de surpresa. Delicada e misteriosa. Ao bater à porta do quarto, temos que abri-la silenciosamente, sem fazer alarde, desvendando aos poucos o cenário e a personagem da história que lá nos aguarda. Por que uma caixinha de surpresa? Porque quase sempre não sabemos o que nos espera. Mesmo já sabendo o nome e a idade da criança (fundamental para o primeiro contato), precisamos chegar de mansinho. Estamos adentrando “sua casa” naquele momento, somos uma visita que não foi convidada, muito embora eles queiram a nossa presença por mais tempo possível. Como não sabemos o que nos espera, devemos olhar o ambiente como um todo, sentir a vibração do quarto, olhar no olho da criança, cumprimentá-la com um sorriso, nos apresentar para, então, escolher a história que será contada. Eu penso que para cada criança existe uma história. Para cada momento de vivência existe uma história. Assim fica mais fácil decidir o que contar e não correr o risco de entrar no quarto “tocando corneta”, pulando e cantando, quando a criança que lá está acabou de fazer uma cirurgia e ainda está sedada ou com dor.

Vânia é cabeça de chave do hospital Samaritano há 7 anos

3. Dica da Alice Arruda: escolha histórias curtas e simples

O que é preciso para ser voluntário do Viva? Estar muito consciente do que é ser voluntário e comprometido com a causa. O que faz bem? Estar transbordando de amor. O que é melhor fazer? Sorrir, deixar o coração guiar as suas emoções e dar o seu melhor naquele momento. Como foi o meu primeiro dia? A minha estreia foi especial, sempre é especial este momento, afinal a gente se prepara tanto… Uma dica? Contar histórias curtas e simples, os livros da Brinque Book são os melhores, pois têm ilustrações fantásticas.

Alice Arruda é cabeça de chave do Hospital Sírio Libanês

4. Dica da Marília Tresca: conte histórias para os bebês

Muitas vezes evitamos os bebezinhos, pois pensamos que eles não vão entender a história, o que é um engano. Mesmo que eles não entendam o conteúdo da história, eles percebem a energia, o carinho, a atenção, os sons, as imagens, o tato. Certa vez, entrei num quarto em que havia uma bebezinha com seus 4 meses de vida. Estava no colo da mãe, choramingando. A mãe, visivelmente cansada e sem paciência, colocou-a no berço logo que entrei. Me apresentei, disse que era contadora de histórias do Viva e que iria contar história para a menina. A mãe arregalou os olhos, como quem diz: Nossa! Pra quê? Ela não entende nada. Eu então fiquei ao lado do berço, com a menina chorando, e comecei a contar a história dos Três Porquinhos. Imediatamente, ela parou de chorar e fixou os olhinhos em mim. Eu contava a história com todas as letras, gesticulando, soprando, mudando as vozes e cantando. A menininha continuava com os olhos vidrados em mim. Até mudei de lado para ver se ela me acompanhava com o olhar, o que fez sem piscar. A mãe mudou a expressão de incredulidade para surpresa e tranquilidade. Continuei contando a história e lá pelo meio a bebê fechou os olhinhos e dormiu. Um soninho tranquilo, de anjo. A mãe na mesma hora disse: Ela gostou da história! Coitada da mãe, estava aliviada, pois provavelmente era a primeira vez que descansaria um pouco. Saí do quarto com a “alma lavada” e aprendi que os bebês gostam e precisam de histórias, além, é claro, de suas mamães e acompanhantes. Por isso, contem histórias para os bebês, se eles estiverem acordados, claro.

Marília Tresca é cabeça de chave do Hospital Cruz Azul

5. Dica da Alexsandra Mauro: seja verdadeiro e espontâneo

Já ouviram aquela história que um bicho feroz tem mais medo de nós, do que nós dele? Pois é, isso é verdade e também acontece com as crianças. Não tenha medo delas, de sua aprovação. Lembre-se de que são crianças. Elas gostam é de arte (no mau sentido da palavra) e alegria. Chegue com um sorriso no rosto e com espírito de que veio para bagunçar, mesmo que esteja num hospital. É disso que elas precisam esquecer, que estão lá. Torne-se criança. Use linguagem de criança, pense como criança, interesse-se sobre o universo das crianças (desenhos, filmes, músicas, brinquedos) para ter sobre o que conversar. E quando conversar, fale de igual para igual, sem essa de falar tudo no diminutivo. Se encantar para encantar. Escolha histórias, com as quais você se emocionou, se divertiu, pois essa emoção vai estar presente na sua fala e nos seus olhos, aí não tem como elas não gostarem também. Seja amiga (o). Não tenha a pretensão de educar, não somos seus pais, claro que se presenciarmos algo gritante, podemos e devemos alertá-las. Muitos livros, por si só, já transmitem valores, mas não fique presa nessas histórias, mas vale uma que arranque uma boa gargalhada…pense no agora, em transformar o momento presente, e não o futuro. SEJA NATURAL E ESPONTÂNEA! Não tente imitar ninguém, e quando algo não funcionar, ria de si mesma(o), se a história não a fez rir, sua risada certamente a fará!

Alexsandra Mauro, mais conhecida como Tia Doida, é atriz, dubladora e voluntária do Icr 

6.  Dica do Paulo Cavalheiro: deficientes não têm deficiência

Nesta visita já estava com o Avental Oficial, Crachá Oficial, Pins Oficiais e tudo o mais não oficial que cabia nos espaços “estrategicamente” colocados nos bolsos, laterais, costas. Lá se encontravam penduricalhos, chaveiros e até livros, estes dentro de uma bolsa de pano. No quarto apenas um garoto de 12 anos (Raphael), poucas luzes acesas, televisão desligada. O menino estava deitado de lado olhando para a porta e no momento que entrei ele não esboçou nenhum sinal. Apresentei-me, e percebi que havia alguém no banheiro, pois o chuveiro estava ligado. Comecei minha apresentação pessoal. Meu nome é Paulo, voluntário da Associação Viva e Deixe Viver, contamos histórias para crianças que gostam ou não de histórias, qual o seu nome, idade. Nenhuma resposta. Percebi que o paciente tinha alguma dificuldade para se comunicar. 

Ele me olhava fixo, dificilmente piscava, porém ficava em uma posição adequada para que eu mostrasse o livro e contasse uma história. Escolhi: “O Cãozinho Bug’s”. Lá pela metade do livro aparece a mãe e com muita educação pergunta o que estou fazendo. Expliquei e, quando ia continuar a história, ela me interrompe educadamente e diz que seu filho não poderia ver o livro que eu estava mostrando, pois ele é cego. Continuei e novamente a interrupção:

– Olha moço, disse a mãe, o senhor está perdendo seu tempo!

– A senhora acha? Por quê?

– Meu filho, além de cego, também tem deficiência auditiva, ele não está nem vendo o livro e nem escutando o senhor! O senhor está perdendo seu tempo! Tantas crianças neste andar que aproveitariam melhor…

Dei um leve sorriso de compreensão, porém pedi que ela me deixasse terminar a história, pois já estava quase no fim. A mãe consentiu prontamente e até comentou que gostava de histórias quando criança, infelizmente não podia contar para o Raphael, pois suas deficências o impediam. Terminei a história, despedi-me do Raphael e da mãe. Quando ainda estava perto da cama, guardando o livro na bolsa e preparando-me para sair, o Raphael leva a mão à boca e me manda um beijo.

A mãe chorou. Eu novamente dei um leve sorriso, este de alegria, e lhe retribui o beijo da mesma forma que recebi.

Amigos, amigas voluntárias ou em processo de seleção, desde o primeiro momento em que entrei no quarto do Raphael, tive a certeza de que estava sendo visto e ouvido, em nenhum momento suas deficiências foram uma barreira para a contação, e um dos melhores presentes que já ganhei na VIDA. Aquele beijo, guardo dentro do coração e ficará para sempre em minha memória.

Paulo Cavalheiro, voluntário no Hospital Cruz Azul, que tem muitas histórias lindas para contar

7. Dica da Jacqueline Cardoso: goste do que está contando

O meu caso foi meio atípico, pois contei história no hospital logo no primeiro dia. A perna tremeu, mas a vontade de ver um sorriso naqueles rostinhos parece anestesia, e a gente conta, conta e, quando vê, já foi.

Eu escolhi histórias bem divertidas, engraçadinhas e as clássicas de princesa. Deu certo. Acho que o principal é você gostar da história que está lendo, você domina e conta de verdade. Aí vem o obrigado, às vezes tímido, o sorriso largo ou um pequeno brilho no olhar. O importante é ir desarmado, sem grandes expectativas e com o coração explodindo de vontade de fazer o que gosta. Boa sorte a todos e muito carinho.

Jacqueline Cardoso é voluntária do Icr

8. Dica da Patrícia Raymundo: conte história antes de contar história

Primeiro leia algumas histórias infantis e escolha a que mais gosta. Conte essa história para alguém. Pode ser para o seu sobrinho, filho, marido, namorado, amigo, avó… Lembre-se que histórias são para pessoas de 0 a 100 anos! Conte do “seu jeito”, ou seja, não decore. Essa parte é importante. Ao contar, você deve sentir prazer em partilhar com alguém. Não se preocupe se está “acertando”. Quando o contador de história se encanta, o ouvinte também se encanta. De preferência, escolha uma história curtinha, porque a duração é importante para não cansar… Depois que contar a história, abra o livro e mostre as gravuras ao ouvinte. Isso irá fazer com que o ouvinte e o contador revivam a história, agora de forma visual. Pronto! Agora, coloque este livro na sua sacola do hospital e, quando chegar lá, ofereça a história para os pacientes se divertirem.

Patricia Raymundo, cabeça de chave do hospital Sepaco

9. Dica da Vilma Cezar: nunca decore

Contar história é contar com o coração. É ser criança, é brincar, é sentir, mas nunca decorar. Se você decorar a história tudo perde o sentido.

Vilma Cezar é a Rita Lee do Icr

10. Minha dica: contador novo, livro velho

Durante os primeiros meses de atuação no hospital, andei só com os meus livros preferidos na bolsa. A insegurança da estreia fica pequena perto do nosso envolvimento com a história.

Meu nome é Juliana Monteiro, conto histórias no Hospital das Clínicas, sou publicitária e escrevo este blog entre um job e outro

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Sem palavras

Você entra pela primeira vez no apartamento de uma vizinha. De cara, vê duas meias jogadas no chão. Livros empilhados e misturados com desenhos, muitos desenhos. Um prato com migalhas de ontem ainda está na mesa. Você não a conhece, mas agora já sabe muita coisa sobre ela. Gosta de literatura e de arte, tem um bom traço, jantou pão com requeijão e passa longe de fazer o estilo certinha. Como dá para saber tanto de uma pessoa, sem ao menos conhecê-la? Tendo somente sua sala como identidade? É que podemos ler cada centímetro do que vemos. Toda imagem vem cheia de palavras. O jeito que a sua amiga se veste diz muito sobre ela. A foto que carregamos na carteira fala sobre os nossos sentimentos. E assim vai até chegar à literatura infantil.

Aprendemos a ler o mundo desde pequenos, da mesma forma, também podemos ler as ilustrações. Os livros-imagem, aqueles que não têm texto escrito, seguem o mesmo ritmo da vida. A narrativa vem em imagens, e a ausência de palavras é preenchida pelos nossos silêncios e vivências. O leitor lê a sua vida nas páginas coloridas e tudo passa a fazer sentido a partir de seus pensamentos e emoções. Talvez seja por isso que cada vez que apresento às crianças o livro Folha, de Stephen Michael King, saio diferente. Vivo experiências inaugurantes a cada leitura. Certa vez, numa das passagens desta história, quando a folha começa a crescer bem no meio da cabeça do personagem, um menino ficou encantado e confessou “Olha, ele tem cabeça de samambaia. Eu também tenho cabeça de samambaia. Melhor do que ter cabeça de vento.”

Quando não estou com vontade de fazer nada, nem de contar histórias, esses livros são meus grandes companheiros. Antes de ir ao HC, coloco na bolsa Telefone sem fio, de Ilan Brenman e Renato Moriconi, e é transformação na certa. Com uma proposta diferente, este é um livro-imagem-brinquedo em que os personagens brincam de telefone sem fio, enquanto nós brincamos de adivinhar o segredo que é passado de um para o outro. Em uma das visitas à hemodiálise, ouvi em uma única leitura estas duas tiradas. Quando perguntei o que o mergulhador havia dito ao pirata, uma menina arriscou em tom grave “Ei, menino, ele disse que você é me-ni-na”. O pirata ficou ofendido e não quis passar este insulto adiante, por isso, na página seguinte, disse ao papagaio “Ei, papagaio, o mergulhador disse que você é um pato”. É um sem fim de risos e de histórias. No final, saio outra, novinha em folha.

Temos o mundo inteiro para ler. Da vida aos quadros, de uma sala à página de um livro ilustrado. E cada espaço, cada situação nos levam a sentimentos e vivências variadas. Por isso, digo que um livro-imagem é infinito. Cabem incontáveis leituras em uma só história. É óbvio que todo contador quer contar, quer falar, mas nesses casos deveria ouvir. Quando contamos a história de um livro-imagem, é a nossa voz que se imprime às páginas. Prefiro ouvir o que as crianças inventam. Elas sempre me deixam sem palavras.

Juliana Monteiro

Contadora do HC que também gosta ouvir histórias

*Texto escrito para a Associação Viva e Deixe Viver

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Era uma vez o Viva e eu

O primeiro dia de contação de história no hospital não é nem de perto um conto de fadas. A sensação de estreia é a mesma dos palcos ou da primeira apresentação em reunião de empresa. Pelo menos para mim foi assim. Eu nunca havia contado história para nenhuma criança, a não ser a que andava meio escondida aqui dentro. Todos os conselhos que recebi ecoavam em repeat na minha cabeça. Cuidado, criança é sincera, dizia um. Eles têm todo o direito de dizer que não querem histórias, insistiram no treinamento do Viva. Bom, o jeito é colocar o avental, escolher os livros, respirar fundo e ver no que dá. E deu. Aos poucos a cumplicidade substituiu o frio na barriga. E ficou muito mais fácil dividir as histórias com as crianças. Aprendi a ler os seus códigos. Se estou demorando demais, elas retornam ao brinquedo que estava de lado. Se está legal, suas mãos alcançam as páginas, enquanto o jantar esfria. Se querem ler sozinhas, a atenção está impressa nas letras, e não nas palavras que escapam de seus ouvidos. Com o tempo, nossas leituras ultrapassaram as páginas dos livros e entraram de vez na minha história. Só não vou dizer que seremos felizes para sempre, porque soaria brega, além de falso. Todos sabem que o hospital não é feito só de alegrias. Digo então que foi a partir dessa experiência que conheci heróis de verdade. E esses levarei comigo para sempre.

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