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Sem palavras

Você entra pela primeira vez no apartamento de uma vizinha. De cara, vê duas meias jogadas no chão. Livros empilhados e misturados com desenhos, muitos desenhos. Um prato com migalhas de ontem ainda está na mesa. Você não a conhece, mas agora já sabe muita coisa sobre ela. Gosta de literatura e de arte, tem um bom traço, jantou pão com requeijão e passa longe de fazer o estilo certinha. Como dá para saber tanto de uma pessoa, sem ao menos conhecê-la? Tendo somente sua sala como identidade? É que podemos ler cada centímetro do que vemos. Toda imagem vem cheia de palavras. O jeito que a sua amiga se veste diz muito sobre ela. A foto que carregamos na carteira fala sobre os nossos sentimentos. E assim vai até chegar à literatura infantil.

Aprendemos a ler o mundo desde pequenos, da mesma forma, também podemos ler as ilustrações. Os livros-imagem, aqueles que não têm texto escrito, seguem o mesmo ritmo da vida. A narrativa vem em imagens, e a ausência de palavras é preenchida pelos nossos silêncios e vivências. O leitor lê a sua vida nas páginas coloridas e tudo passa a fazer sentido a partir de seus pensamentos e emoções. Talvez seja por isso que cada vez que apresento às crianças o livro Folha, de Stephen Michael King, saio diferente. Vivo experiências inaugurantes a cada leitura. Certa vez, numa das passagens desta história, quando a folha começa a crescer bem no meio da cabeça do personagem, um menino ficou encantado e confessou “Olha, ele tem cabeça de samambaia. Eu também tenho cabeça de samambaia. Melhor do que ter cabeça de vento.”

Quando não estou com vontade de fazer nada, nem de contar histórias, esses livros são meus grandes companheiros. Antes de ir ao HC, coloco na bolsa Telefone sem fio, de Ilan Brenman e Renato Moriconi, e é transformação na certa. Com uma proposta diferente, este é um livro-imagem-brinquedo em que os personagens brincam de telefone sem fio, enquanto nós brincamos de adivinhar o segredo que é passado de um para o outro. Em uma das visitas à hemodiálise, ouvi em uma única leitura estas duas tiradas. Quando perguntei o que o mergulhador havia dito ao pirata, uma menina arriscou em tom grave “Ei, menino, ele disse que você é me-ni-na”. O pirata ficou ofendido e não quis passar este insulto adiante, por isso, na página seguinte, disse ao papagaio “Ei, papagaio, o mergulhador disse que você é um pato”. É um sem fim de risos e de histórias. No final, saio outra, novinha em folha.

Temos o mundo inteiro para ler. Da vida aos quadros, de uma sala à página de um livro ilustrado. E cada espaço, cada situação nos levam a sentimentos e vivências variadas. Por isso, digo que um livro-imagem é infinito. Cabem incontáveis leituras em uma só história. É óbvio que todo contador quer contar, quer falar, mas nesses casos deveria ouvir. Quando contamos a história de um livro-imagem, é a nossa voz que se imprime às páginas. Prefiro ouvir o que as crianças inventam. Elas sempre me deixam sem palavras.

Juliana Monteiro

Contadora do HC que também gosta ouvir histórias

*Texto escrito para a Associação Viva e Deixe Viver

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Lorena, minha contadora de histórias

Não posso começar a escrever sobre o nosso assunto preferido, sem falar sobre nós. Há dois anos, passei por um dos corredores do Hospital das Clínicas e me espantei quando vi um quarto cheio de presentes. No chão, na cômoda, pela cama, eram bichos de pelúcia, roupas, livros, jogos e uma menina. Parei em frente à porta e seu sorriso me convidou a entrar. “Meu nome é Lorena, e o seu?” Logo fomos às histórias. Comecei por uma das que mais gosto O homem que amava caixas, de Stephen Michael King e, depois de dois anos de muitas páginas, risadas, amizade e cumplicidade, a nossa história terminou com um livro que se tornaria um de seus preferidos, Pollyanna, de Eleanor Porter.

Sim, ela foi embora. Junto com ela, foi a minha vontade de contar histórias. Pelo menos por um tempo. Gosto de ser inteira, agora fico pela metade naquele hospital. Quem diria que por trás de tantos presentes, eu encontraria o meu.

 

– Livro indicado pela Ju Monteiro: O homem que amava caixas, de Stephen Michael King, Ed. Brinque-Book.

– Livro que a Lorena indicaria: Pollyanna, de Eleanor Porter, adaptação de João Carrascoza, Ed. Ática.

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