Arquivo mensal: janeiro 2012

Sem palavras

Você entra pela primeira vez no apartamento de uma vizinha. De cara, vê duas meias jogadas no chão. Livros empilhados e misturados com desenhos, muitos desenhos. Um prato com migalhas de ontem ainda está na mesa. Você não a conhece, mas agora já sabe muita coisa sobre ela. Gosta de literatura e de arte, tem um bom traço, jantou pão com requeijão e passa longe de fazer o estilo certinha. Como dá para saber tanto de uma pessoa, sem ao menos conhecê-la? Tendo somente sua sala como identidade? É que podemos ler cada centímetro do que vemos. Toda imagem vem cheia de palavras. O jeito que a sua amiga se veste diz muito sobre ela. A foto que carregamos na carteira fala sobre os nossos sentimentos. E assim vai até chegar à literatura infantil.

Aprendemos a ler o mundo desde pequenos, da mesma forma, também podemos ler as ilustrações. Os livros-imagem, aqueles que não têm texto escrito, seguem o mesmo ritmo da vida. A narrativa vem em imagens, e a ausência de palavras é preenchida pelos nossos silêncios e vivências. O leitor lê a sua vida nas páginas coloridas e tudo passa a fazer sentido a partir de seus pensamentos e emoções. Talvez seja por isso que cada vez que apresento às crianças o livro Folha, de Stephen Michael King, saio diferente. Vivo experiências inaugurantes a cada leitura. Certa vez, numa das passagens desta história, quando a folha começa a crescer bem no meio da cabeça do personagem, um menino ficou encantado e confessou “Olha, ele tem cabeça de samambaia. Eu também tenho cabeça de samambaia. Melhor do que ter cabeça de vento.”

Quando não estou com vontade de fazer nada, nem de contar histórias, esses livros são meus grandes companheiros. Antes de ir ao HC, coloco na bolsa Telefone sem fio, de Ilan Brenman e Renato Moriconi, e é transformação na certa. Com uma proposta diferente, este é um livro-imagem-brinquedo em que os personagens brincam de telefone sem fio, enquanto nós brincamos de adivinhar o segredo que é passado de um para o outro. Em uma das visitas à hemodiálise, ouvi em uma única leitura estas duas tiradas. Quando perguntei o que o mergulhador havia dito ao pirata, uma menina arriscou em tom grave “Ei, menino, ele disse que você é me-ni-na”. O pirata ficou ofendido e não quis passar este insulto adiante, por isso, na página seguinte, disse ao papagaio “Ei, papagaio, o mergulhador disse que você é um pato”. É um sem fim de risos e de histórias. No final, saio outra, novinha em folha.

Temos o mundo inteiro para ler. Da vida aos quadros, de uma sala à página de um livro ilustrado. E cada espaço, cada situação nos levam a sentimentos e vivências variadas. Por isso, digo que um livro-imagem é infinito. Cabem incontáveis leituras em uma só história. É óbvio que todo contador quer contar, quer falar, mas nesses casos deveria ouvir. Quando contamos a história de um livro-imagem, é a nossa voz que se imprime às páginas. Prefiro ouvir o que as crianças inventam. Elas sempre me deixam sem palavras.

Juliana Monteiro

Contadora do HC que também gosta ouvir histórias

*Texto escrito para a Associação Viva e Deixe Viver

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Era uma vez o Viva e eu

O primeiro dia de contação de história no hospital não é nem de perto um conto de fadas. A sensação de estreia é a mesma dos palcos ou da primeira apresentação em reunião de empresa. Pelo menos para mim foi assim. Eu nunca havia contado história para nenhuma criança, a não ser a que andava meio escondida aqui dentro. Todos os conselhos que recebi ecoavam em repeat na minha cabeça. Cuidado, criança é sincera, dizia um. Eles têm todo o direito de dizer que não querem histórias, insistiram no treinamento do Viva. Bom, o jeito é colocar o avental, escolher os livros, respirar fundo e ver no que dá. E deu. Aos poucos a cumplicidade substituiu o frio na barriga. E ficou muito mais fácil dividir as histórias com as crianças. Aprendi a ler os seus códigos. Se estou demorando demais, elas retornam ao brinquedo que estava de lado. Se está legal, suas mãos alcançam as páginas, enquanto o jantar esfria. Se querem ler sozinhas, a atenção está impressa nas letras, e não nas palavras que escapam de seus ouvidos. Com o tempo, nossas leituras ultrapassaram as páginas dos livros e entraram de vez na minha história. Só não vou dizer que seremos felizes para sempre, porque soaria brega, além de falso. Todos sabem que o hospital não é feito só de alegrias. Digo então que foi a partir dessa experiência que conheci heróis de verdade. E esses levarei comigo para sempre.

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Uma fábula sobre a fábula

Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar o grande palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
 Linda, nua, envolta somente num véu claro e transparente, ela foi bater à porta do rico palácio em que vivia o senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela mulher espetacular, o chefe dos guardas perguntou:

– Quem é você?

– Sou a Verdade! – respondeu, com voz firme.

– Quero falar com o seu amo, o cheique do Islã!

O chefe dos guardas, preocupado com a segurança do palácio, foi correndo falar com o sultão:

– Senhor, uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar com o senhor.

– Como ela se chama?

– Chama-se Verdade.

– A Verdade?! A Verdade quer entrar neste palácio? Não! Nunca! O que seria de mim, o que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? Seria uma perdição, uma desgraça! Diga que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!

O chefe dos guardas voltou e repassou o recado à Verdade, que ficou muito triste e afastou-se lentamente do palácio do magnânimo sultão.

Mas quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou querendo visitar o grande palácio. 
Cobriu-se com um couro grosseiro, como os que usam os pastores, e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Quando viu aquela formosa mulher vestida daquele jeito estranho, cheia de couros e peles, o chefe dos guardas perguntou:

– Quem é você?

– Sou a Acusação! – respondeu, em tom severo.

– Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid.

O chefe dos guardas, preocupado com a segurança do palácio, correu até o seu senhor.

– Senhor, uma mulher desconhecida, com o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar, sultão Harun Al-Raschid.

– Como ela se chama?

– Chama-se Acusação.

– A Acusação?! A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! O que seria de mim, o que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! Seria uma perdição, uma desgraça! Diga que não, que não pode entrar. Uma mulher, com as vestes grosseiras, não pode falar com o Califa, nosso amo e senhor!

O chefe dos guardas voltou e repassou o recado a ela, que ficou muito triste e afastou-se novamente do palácio.

Mas quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.

E a mulher vestiu-se com ríquissimos trajes, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.

Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou:

– Quem é você?

– Sou a Fábula – respondeu ela, em um tom meigo.

– Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:

– Senhor, uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita o nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid.

– Como ela se chama?

– Chama-se Fábula!

– A Fábula! – exclamou o sultão, cheio de alegria.

– A Fábula quer entrar neste palácio. Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula. Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes. Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha.

E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou. Foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, senhor do grande império muçulmano.

de Malba Tahan

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Lorena, minha contadora de histórias

Não posso começar a escrever sobre o nosso assunto preferido, sem falar sobre nós. Há dois anos, passei por um dos corredores do Hospital das Clínicas e me espantei quando vi um quarto cheio de presentes. No chão, na cômoda, pela cama, eram bichos de pelúcia, roupas, livros, jogos e uma menina. Parei em frente à porta e seu sorriso me convidou a entrar. “Meu nome é Lorena, e o seu?” Logo fomos às histórias. Comecei por uma das que mais gosto O homem que amava caixas, de Stephen Michael King e, depois de dois anos de muitas páginas, risadas, amizade e cumplicidade, a nossa história terminou com um livro que se tornaria um de seus preferidos, Pollyanna, de Eleanor Porter.

Sim, ela foi embora. Junto com ela, foi a minha vontade de contar histórias. Pelo menos por um tempo. Gosto de ser inteira, agora fico pela metade naquele hospital. Quem diria que por trás de tantos presentes, eu encontraria o meu.

 

– Livro indicado pela Ju Monteiro: O homem que amava caixas, de Stephen Michael King, Ed. Brinque-Book.

– Livro que a Lorena indicaria: Pollyanna, de Eleanor Porter, adaptação de João Carrascoza, Ed. Ática.

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Para o Pedro, meu marinheiro preferido

Marinheiro pequenino

bebeu água ao se deitar

Acordou de madrugada

Sua cama era um mar

José Paulo Paes

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3 de maio

Aprendi com o meu filho de 10 anos

Que a poesia é a descoberta

Das coisas que nunca vi

Oswald de Andrade

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